Começar a leitura
Buscar no acervo
GP NotíciasNotícia o dia inteiro
Negócios20 de setembro de 20267 min de leitura
Negócios

Água na indústria têxtil: tingimento, vapor, efluente e reúso

Água na indústria têxtil precisa ser igual todos os dias: a receita de corante é calibrada para uma água só.
Linha de produção de fios em fábrica da indústria têxtil

Uma tinturaria de Americana, no polo têxtil paulista, recebeu do mesmo cliente duas reclamações opostas na mesma semana: um lote de malha saiu com tom mais claro que a amostra, e outro, com manchas escuras nas dobras. A receita de corante não tinha mudado. O que mudou foi o poço, que passou a trazer mais ferro depois de um período seco. A água na indústria têxtil é o meio em que o corante se fixa, e cada miligrama de ferro, cada grau de dureza e cada variação de pH aparece no tecido. A empresa corrigiu com um sistema de tratamento de água para indústria têxtil na entrada da tinturaria, e a cor voltou a bater com a amostra.

O setor têxtil é um dos que mais consomem água por quilo de produto, e um dos que mais dependem da qualidade dela. Este texto explica onde a água entra no processo, o que cada parâmetro faz com o tingimento, quanto se consome, o que a lei exige do efluente e como o reúso mudou a conta das tinturarias.

Onde a água na indústria têxtil entra no processo

A água participa de quase todas as etapas úmidas: desengomagem, alvejamento, mercerização, tingimento, lavagem, amaciamento e a geração de vapor que aquece os banhos. Em cada uma ela dissolve produtos químicos, transporta o corante até a fibra e leva embora o que não se fixou.

Levantamentos do setor estimam o consumo entre 100 e 150 litros por quilo de tecido em tinturaria convencional, com variação grande conforme a fibra, o processo e o grau de reúso. Uma tinturaria de porte médio consome o equivalente a uma cidade pequena.

Como o volume é grande, qualquer diferença na qualidade da água se multiplica por milhares de litros por hora.

O que cada parâmetro da água faz no tingimento

A tabela mostra os parâmetros que a tinturaria controla, o efeito de cada um no tecido e a faixa que o processo exige.

ParâmetroEfeito no tecidoFaixa exigida
DurezaPrecipita corante e sabão, deixa toque áspero e tom desigualAbaixo de 50 mg/L, próximo de zero em corantes reativos
Ferro e manganêsManchas, tom escurecido, reação com alvejanteFerro abaixo de 0,1 mg/L
Cor e turbidezInterferem no tom e sujam o banhoÁgua límpida e incolor
pH e alcalinidadeAlteram a fixação do corante e o consumo de ácido e álcalipH neutro e alcalinidade estável
Cloro residualDescolora corante e degrada fibraRemovido antes do banho
Sólidos dissolvidosAlteram a solubilidade do corante e o resultado entre lotesConstante entre um lote e outro

Mais que atender a cada faixa, o processo exige que a água seja igual todos os dias, porque a receita de tingimento é calibrada para uma água específica.

Como montar o tratamento da água de entrada

A sequência abaixo é o padrão para tinturaria abastecida por poço ou por rede com água dura.

  1. Análise da água bruta ao longo do ano, porque a qualidade do poço varia entre chuva e seca.
  2. Filtração de sedimentos e, se houver cor, clarificação com coagulante e filtro.
  3. Remoção de ferro e manganês por oxidação e filtro específico, antes do abrandador.
  4. Abrandamento por troca iônica em abrandadores duplos, para água mole 24 horas por dia.
  5. Carvão ativado ou redutor químico para eliminar o cloro antes dos banhos.
  6. Osmose reversa nos banhos mais sensíveis e no vapor, quando a análise pede água padronizada.

Dureza e ferro: os dois vilões da tinturaria

Corantes reativos e diretos reagem com cálcio e magnésio e formam compostos insolúveis que se depositam no tecido em vez de se fixar na fibra. O resultado é tom desigual, toque áspero e um consumo maior de sequestrante e de corante para compensar. Água abrandada elimina o problema na origem e reduz a dose de produto químico.

O ferro tem efeito ainda mais visível: reage com o alvejante, escurece o branco, forma manchas em dobras e altera tons de corantes sensíveis a metais. Como ele varia com a estação em água de poço, a tinturaria que não trata vive de ajuste de receita.

O filtro de ferro antes do abrandador protege os dois processos e a resina.

Vapor e caldeira: a água que ninguém vê no tecido

Os banhos são aquecidos com vapor, e a caldeira que o produz precisa de água abrandada ou de osmose para não incrustar. Em tinturaria, a caldeira roda o dia inteiro, e a crosta no tubo aparece como combustível a mais e pressão instável nas máquinas de tingimento.

A norma NR-13 exige controle da qualidade da água da caldeira, e o programa de tratamento inclui desaeração e dosagem interna, além do abrandamento.

Vapor de contato direto com o tecido, em algumas etapas de acabamento, precisa de água de qualidade compatível com o produto.

Efluente têxtil: o que a lei exige na saída

O efluente da tinturaria carrega corante, sais, álcali, ácido, amaciante e a matéria orgânica dos auxiliares, e é um dos mais coloridos e difíceis de tratar da indústria. A CONAMA 430/2011 e as normas estaduais fixam limites de pH, temperatura, carga orgânica e, em muitos estados, de cor, e a licença de operação exige estação própria.

O tratamento combina equalização, físico-químico para tirar cor e sólidos, biológico para carga orgânica e, quando a licença pede, polimento por carvão ou membrana.

Tinturaria que lança na rede pública precisa do aceite da concessionária, que costuma exigir descoloração e correção de pH antes de receber.

Reúso: a conta que virou vantagem competitiva

Os enxágues finais e o efluente tratado com polimento por membrana voltam para etapas menos sensíveis, como lavagem inicial e caldeira, e a recuperação chega a 30% a 50% do consumo em plantas que investiram no sistema. Em região de cobrança pelo uso da água e de tarifa industrial alta, o reúso paga o investimento em prazo curto.

O reúso exige água de reposição bem tratada, porque sais e cor que entram errado se acumulam na recirculação e voltam ao tecido.

Grandes marcas de moda passaram a exigir de seus fornecedores metas de consumo de água por quilo, e a tinturaria que mede e reduz o consumo ganha contrato.

Perguntas frequentes sobre água na indústria têxtil

Quanto de água uma tinturaria gasta?

Entre 100 e 150 litros por quilo de tecido em processo convencional, menos em máquinas de baixa relação de banho e com reúso.

Água da rede pública serve para tingir?

Serve como fonte, depois de abrandamento e remoção de cloro. Sem isso, o cloro descolora o corante e a dureza precipita.

Ferro na água mancha o tecido?

Mancha, escurece o branco e altera tons sensíveis a metais. O limite prático é abaixo de 0,1 mg/L, bem mais rígido que o de potabilidade.

Precisa de osmose reversa?

Nos banhos mais sensíveis e no gerador de vapor, quando a análise mostra sais variáveis. Para lavagens e etapas iniciais, abrandamento basta.

O efluente colorido pode ir para a rede?

Só com tratamento e aceite da concessionária, que costuma exigir remoção de cor e pH corrigido. A licença ambiental define o padrão.

O reúso altera a cor do tecido?

Não, quando a água reutilizada volta para etapas menos sensíveis e a reposição é bem tratada. Reúso direto no banho de tingimento exige polimento por membrana.

Resumo

A água na indústria têxtil é o meio em que o corante se fixa, e dureza, ferro, cloro, pH e sais variáveis aparecem no tecido como tom desigual, manchas e toque áspero. O tratamento de entrada combina filtração, remoção de ferro, abrandadores duplos, controle de cloro e osmose nos pontos sensíveis e na caldeira, sempre a partir de análises ao longo do ano. O efluente colorido exige estação própria pela CONAMA 430 e pela licença, e o reúso de 30% a 50% do consumo virou exigência de cliente e vantagem de custo.

COMPARTILHARWhatsAppFacebookX

Siga a leitura