Pela primeira vez em seus três mandatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu no Palácio da Alvorada um grupo de familiares de mortos e desaparecidos políticos. O encontro ocorreu na noite da última segunda-feira (10), durante a exibição do filme “Honestino”, que conta a história do líder estudantil Honestino Guimarães, assassinado pela ditadura e cujo corpo nunca foi localizado.
O evento não foi uma audiência oficial, pedido que já foi feito diversas vezes sem sucesso por parentes e por militantes de direitos humanos. Mesmo assim, a presença desses representantes na residência oficial da Presidência foi comemorada por quem participou.
“Eu fiquei contente com o encontro, foi a primeira vez, fiquei feliz. Para nós foi uma honra, fomos recebidos, fomos muito bem tratados. Passamos para ele [Lula] todo o trabalho que a comissão tem feito”, disse Diva Santana, irmã de Dinaelza Coqueiro, militante do PC do B morta pela ditadura na região do Araguaia e cujo corpo jamais foi encontrado.
Diva é representante dos familiares na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado com apoio do Ministério dos Direitos Humanos. “Essas coisas só são possíveis no processo da democracia. Sem democracia, isso não ocorre, né?”, afirmou ela, lembrando que a comissão foi extinta durante o governo Jair Bolsonaro.
Também estiveram presentes Vera Facciolla Paiva, filha de Rubens Paiva e Eunice Paiva, professora de psicologia da USP e representante da sociedade civil na CEMDP, além da presidente do colegiado, a procuradora da República Eugênia Gonzaga. Juliana Botelho Guimarães Lopes, filha de Honestino, e Lucas Botelho Guimarães Lopes, neto do líder estudantil, também participaram da sessão.
“Foi muito simbólico estar lá nesse momento, ainda mais para ver um filme tão significativo para todas as famílias”, afirmou Eugênia, que entregou a Lula uma sacola bordada de um dos encontros dos familiares e um bottom com o nome do operário Manuel Fiel Filho, assassinado pela ditadura. A primeira-dama Janja recebeu dois bottons, um com o nome de Dinaelza e outro de Stuart Angel, também morto pela repressão.
Na ocasião, Eugênia Gonzaga mostrou a Lula a certidão de óbito retificada de Honestino Guimarães, que registra “morte não natural, violenta, causada pelo Estado no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política no regime ditatorial instaurado em 1964”. Ela convidou o presidente para a última rodada de entrega de certidões retificadas no final do ano.
Em 2023, familiares e militantes criticaram Lula pela demora em recriar a CEMDP e por declarações sobre o passado. Segundo Diva Santana, ainda há “muito desgosto” entre os familiares pelas tentativas sem resultado de localizar os corpos. “Tem familiar que não acredita em nada. Eu tenho 81 anos, mas não desisti ainda. Acredito na nossa força”, disse.
Para ela, a mobilização ganhou força depois do filme “Ainda Estou Aqui”. Três ministros participaram do evento: Janine Mello (Direitos Humanos), Leonardo Barchini (Educação) e Margareth Menezes (Cultura), além da equipe do longa, dirigido por Aurélio Michiles.
