junho 4, 2026
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Mulas do Paraguai: R$ 500 para trazer canetas emagrecedoras ilegais

Mulas do Paraguai: R$ 500 para trazer canetas emagrecedoras ilegais

Um ônibus de linha que saiu de Foz do Iguaçu (PR) com destino a Florianópolis foi escoltado pela Receita Federal após uma denúncia sobre produtos contrabandeados a bordo, incluindo canetas emagrecedoras. Após duas horas de buscas, o veículo seguiu viagem, mas com menos passageiros e carga. Além de mercadorias irregulares avaliadas em mais de R$ 300 mil, foram apreendidas dezenas de ampolas de emagrecedores paraguaios à base de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.

Uma passageira, moradora de Foz, disse à polícia que os eletrônicos que levava não eram seus, mas sim da pessoa que a contratou. Essa prática é comum nos ônibus que chegam à região da tríplice fronteira para compras no Paraguai. As chamadas “mulas do contrabando” recebem valores conforme a carga e a eficiência em driblar a fiscalização. Uma mula experiente recebe pelo menos R$ 500 para ir ao Paraguai e voltar com a mercadoria, valor que pode aumentar conforme o risco.

Viajantes envolvidos em grandes apreensões de canetas emagrecedoras têm sido indiciados por crime contra a saúde pública, além de contrabando. A condenação por crime contra a saúde pública pode resultar em pena de 10 a 15 anos de prisão. Já o contrabando prevê reclusão de 2 a 5 anos, e o descaminho, de 1 a 4 anos.

O superintendente da PRF no Paraná, Fernando César Oliveira, destacou os riscos dos medicamentos contrabandeados. “Além de não saber a procedência, há o risco de ser um medicamento falsificado. O transporte é precário, sem refrigeração adequada, podendo tornar o produto tóxico”, afirmou. Ele lembrou que a pena para crime à saúde pública é mais grave do que a para tráfico de drogas.

Embora proibidos no Brasil, esses medicamentos são fabricados por laboratórios paraguaios e registrados na autoridade sanitária do país vizinho, a Dinavisa. A farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirma que o medicamento exige controle rigoroso de temperatura em toda a cadeia. “Quando produtos com tirzepatida circulam fora dos canais autorizados, não há garantia de que esses requisitos foram cumpridos, expondo os pacientes a riscos”, diz a empresa.

Oliveira aponta uma migração das mulas do contrabando, que estariam deixando de transportar cigarros eletrônicos para levar canetas emagrecedoras, por ocuparem menos espaço e serem mais lucrativas. “Há quem leve pequenas quantidades escondidas no corpo e quem use compartimentos ocultos em veículos, próximos ao motor, com altas temperaturas, submetendo o produto a um transporte inadequado”, explicou.

Dados da PRF mostram que o Paraná liderou no ano passado o ranking de apreensões de medicamentos nas rodovias federais. Das 68.631 unidades listadas, 22.975 foram apreendidas em estradas paranaenses, seguidas por São Paulo (17.888) e Goiás (13.731).

Uma das mulas, que teve três desktops apreendidos, relatou que em viagem anterior seu “patrão” perdeu R$ 140 mil. Além dos R$ 500 pelo transporte, ela recebeu R$ 150 para alimentação. Outra passageira, que viaja duas vezes por semana ao Paraguai, disse receber R$ 400 por deslocamento e que os R$ 3.200 mensais superam “qualquer emprego CLT, com menos trabalho”.

Em uma operação na BR-277, em Santa Terezinha de Itaipu (PR), um veículo SUV foi revistado. Após uma vistoria inicial sem resultados, os agentes encontraram 2.210 unidades de medicamentos emagrecedores em um fundo falso, descoberto após a remoção das rodas traseiras e do revestimento. A carga foi avaliada em R$ 420,9 mil. No compartimento também foram achados peptídeos e ampolas de retatrutida, medicamento ainda em fase de estudo. O motorista foi preso em flagrante.

Dias depois, outra fiscalização encontrou R$ 250 mil em canetas paraguaias escondidas em um veículo, em compartimento semelhante. O motorista afirmou que receberia 10% do valor transportado como pagamento. Oliveira concluiu: “São cargas valiosas, com lucro alto, que ocupam pouco espaço e são de fácil revenda. Enquanto for fácil comprar no Paraguai e vender aqui, a gente fica enxugando gelo.”

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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