Taiwan está no centro de uma das maiores tensões geopolíticas da atualidade. A poucos quilômetros dali, Pequim mantém a ameaça de usar a força para tomar a ilha, que considera parte de seu território. Quem imagina uma Taipé sob a sombra de um conflito, porém, se engana. A capital taiwanesa é vibrante e se consolida cada vez mais como um destino turístico emergente da Ásia.
Com 23 milhões de habitantes e 36 mil quilômetros quadrados, uma área menor que a do estado do Rio de Janeiro, Taiwan é referência em cultura, gastronomia e hotéis de luxo. A ilha é compacta e aproxima a vida urbana da natureza. Também é tecnológica e combina modernidade e tradição.
Em Taipé, capital no norte da ilha, arranha-céus espelhados dividem espaço com templos centenários de delicada arquitetura chinesa. O principal cartão-postal é o Taipei 101, torre de 101 andares que se destaca no horizonte e pode ser vista de diversas áreas da cidade.
O Taipei 101 foi inaugurado em 2004 com 508 metros de altura e o título de edifício mais alto do mundo. A torre permaneceu no topo da lista até 2010, quando foi superada pelo Burj Khalifa, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A estrutura do arranha-céu taiwanês foi pensada para lembrar o bambu, com módulos de oito andares que remetem ao caule da planta. O número oito foi escolhido por ser considerado auspicioso na tradição chinesa.
Subir ao observatório, no 89º andar, leva poucos segundos e custa 600 dólares taiwaneses (cerca de R$ 95). De cima, é possível ver quase toda Taipé e um marco da engenharia moderna: um pêndulo de 660 toneladas e 5,5 metros de diâmetro, suspenso no centro da torre. A esfera age como um contrapeso, movendo-se na direção oposta ao edifício para reduzir a oscilação durante tremores e ventos fortes. Em Taiwan, terremotos e tufões, estes com mais chances de ocorrer de julho a setembro, não são raros.
O Taipei 101 fica no distrito de Xinyi, conhecido como a “Manhattan de Taipé” pela concentração de arranha-céus, empresas e shoppings de luxo. De lá, uma caminhada de 20 minutos leva à Elephant Mountain (Montanha do Elefante), onde o concreto dá lugar à vegetação. A colina, no leste da cidade, tem uma trilha com centenas de degraus de pedra e mirantes com vista para a região central. A caminhada até o topo leva 50 minutos e exige fôlego. O movimento aumenta ao entardecer, quando turistas vão ver o pôr do sol. O acesso é gratuito.
Além dos edifícios modernos, Taiwan preserva construções inspiradas na arquitetura tradicional chinesa. Há vários templos dedicados ao confucionismo, taoismo e budismo, além de museus e memoriais. Um dos exemplos mais emblemáticos é o Museu Nacional do Palácio, que lembra os antigos palácios imperiais asiáticos. Com cerca de 700 mil peças, é o museu mais importante de Taiwan.
O acervo começou a ser transferido da China continental durante a guerra civil. Com o avanço das tropas comunistas de Mao Tsé-tung, o governo nacionalista de Chiang Kai-shek retirou parte das coleções imperiais da Cidade Proibida e as levou para Taiwan, onde estão desde o fim do conflito, em 1949. As obras seguem como um tema sensível nas relações entre as partes até hoje.
A visita ao museu exige algumas horas. O acervo tem esculturas, cerâmicas, porcelanas, livros raros, documentos históricos e milhares de outros objetos. As obras cobrem cerca de 5.000 anos da civilização chinesa, do período neolítico a pinturas contemporâneas. A entrada custa 350 dólares taiwaneses (R$ 55). Ao lado, há um jardim em estilo tradicional chinês com entrada gratuita.
No Memorial Chiang Kai-shek, outro cartão-postal de Taipé, no centro da cidade, a disputa entre Taiwan e China também é lembrada. O complexo homenageia o líder nacionalista que se refugiou na ilha após a vitória dos comunistas. No salão principal, há uma estátua de bronze de seis metros de Chiang. A troca de guarda ocorre de hora em hora. A entrada é grátis.
O corpo de Chiang não está no memorial. Os restos mortais estão guardados a cerca de 40 quilômetros de Taipé. Antes de morrer, em 1975, o ex-líder pediu para ser sepultado em definitivo apenas quando a China continental voltasse ao controle da República da China, nome oficial de Taiwan. Como isso nunca ocorreu, seus restos mortais permanecem distantes até hoje.
A disputa também aparece no Grand Hotel, um dos mais emblemáticos da Ásia. Erguido sobre uma colina em 1952, o hotel já recebeu chefes de Estado, membros de famílias reais e outras autoridades estrangeiras. Embaixo, há túneis de emergência construídos para um caso de ataque.
Pequim considera a ilha parte de seu território e afirma que irá retomá-la. Taipé, por sua vez, diz que é soberana e que não está subordinada às decisões das autoridades chinesas.
Fora dos lugares históricos, porém, são raras as referências às ameaças da China. Durante uma semana na ilha, a reportagem não viu equipamentos militares, soldados nem patrulhamento policial. A única autoridade encontrada foi um agente de trânsito. Em conversas informais, taiwaneses tratam com desdém a possibilidade de um ataque chinês. Uma pessoa ouvida disse, com ar de desprezo, que essa é uma preocupação das gerações mais velhas.
Pesquisas mostram que muitos taiwaneses veem a China como uma ameaça, mas não acreditam em uma guerra iminente. Levantamento do Instituto para Pesquisa de Defesa e Segurança Nacional de Taiwan divulgado em 2025 mostrou que 65% dos entrevistados consideravam improvável uma invasão da China nos próximos cinco anos.
Os turistas seguem a mesma lógica. Em 2025, Taiwan recebeu 8,57 milhões de visitantes, um crescimento em relação a 2024 (7,86 milhões) e a 2023 (6,49 milhões), segundo o governo local. A alta temporada vai de outubro a abril, quando o clima é mais ameno.
Nas ruas, a experiência é bem diferente da encontrada em muitos países ocidentais. Embora muitos taiwaneses não falem inglês, a viagem é facilitada por serviços digitais como Google e Uber, que funcionam normalmente, uma diferença em relação à China, onde várias plataformas estrangeiras têm restrições.
